terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Amo-te P...


"No Verão, a maresia eterna que pela noite penetra intrusa por entre as frestas da janela.

No Inverno, o silêncio do amanhecer de domingo esculpido pelo som dos eléctricos que lutam ao acordar contra os ferros dos carris.

Esta é a cidade que eu amo."


quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Desencontros...

"Dorme na mesma cidade em que durmo, respira o mesmo ar , deve maldizer o mesmo céu permanentemente húmido, continuamente chuvoso; percorre certamente as mesmas ruas que eu, admira-me durante estes anos todos não ter dado de caras com ele, ir a atravessar numa passadeira, olhar para o carro que parou por causa do semáforo vermelho e vê-lo, sorrindo-me por trás do vidro embaciado, faz-me confusão nunca o ter encontrado nos cafés, nos cinemas, nas discotecas, o que faz, com quem se dá, em quem afoga a sua ternura amordaçada, quem beijará antes de adormecer, como vive fora dos meus limites, do meu alcançe agora que sou um pássaro à solta, afiando as garras do desprezo em cada conversa, em cada encontro, em cada beijo trocado ao de leve para provocar o desejo violento de outros beijos. [...]
[...]Quem és que realmente nunca cheguei a saber, o que és que não me deste, que não me deixaste absorver para ser mais eu dentro do que queria ser tua, ser tua como nunca fui e agora tenho medo de ser."

*
Rodrigo Guedes de Carvalho
in
Daqui a nada

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Fado To(l)inho

Dizem que é mau, que faz e acontece!
Arma confusão e o diabo a sete!

Agarrem-me que eu vou-me a ele, nem sei o que lhe faço!
Desgrenho os cabelos, esborrato os lábios...
Se não me seguram, dou-lhe forte e feio!
Beijinhos na boca... Arrepios no peito...
E pagas as favas!
Eu digo, enfim: “Ó meu rapazinho és fraco para mim!”

De peito feito, ele ginga o passo;
arregaça as mangas e escarra pró lado.
Anda lá, meu cobardolas!
Vem cá, mano a mano!
Eu faço e aconteço;
eu posso, eu mando!

Se não me seguram, dou-lhe forte e feio!
Beijinhos na boca... Arrepios no peito...
E pagas as favas!
Eu digo, enfim: “Ó meu rapazinho, sou tão má para ti!”

“Ó meu rapazinho, ai...”
Eu digo assim: “Se não me seguram, dou cabo de ti!”

...à boa moda portuguesa!

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Agradecimento...

...soube que, de alguma maneira, todos os passos que deu desde que trocaram o primeiro olhar, eram passos dirigidos ao seu encontro. A sua procura por ele era uma busca interminável... destinada ao fracasso...
Já antes tinham falado o que aconteceria se fossem separados pela força das circunstâncias... soube sempre que as palavras que lhe sussurrara ao ouvido eram absurdas, e devia ter percebido isso desde então... Ele... só ele... foi sempre a única pessoa que desejou, e agora que ele já não está cá, não tem qualquer desejo de encontrar outro... vive-o, até que a morte os separe! Acredita que estas palavras permanecerão verdadeiras até finalmente chegar o dia em que ela, também, será levada deste mundo.
A última notícia que recebeu dele, depois de quarenta anos passados desde a derradeira volta do correio remetida do outro lado do oceano, dava conta da hora da sua morte há dez anos atrás, num motel em Copacabana, cujo nome estava inscrito em letras negras na certidão de óbito.
Agradeceu-lhe, nesse momento, por lhe ter mostrado que chegou a altura em que pôde finalmente deixá-lo partir...
Ainda hoje trás nos olhos uma amargura insane, mas dos seus lábios emana a certeza de que o amor permanece...

terça-feira, 1 de julho de 2008

Hoje...

...pedi à manhã o teu sorriso, como quem pede um pouco de sol depois de dias consecutivos de um inverno chuvoso...

quinta-feira, 19 de junho de 2008

(In)confidências...

...confidente é a palavra usada por outros para definir quem vive na sombra das palavras deixadas ao acaso por alguém que, de tão sério ser, se deixou acessível a uns tantos adjectivos miseráveis e que, na minha inconcordância, também me magoam só de os ouvir...
Ainda assim, mesmo quando a novidade comporta desconforto e hesitações, mesmo quando tememos desilusões e logros, há ali uns breves momentos de alvoroço e curiosidade que nos proporcionam o encantamento de outros tempos. Parece que, se por um lado somos rápidos a esquecer e a pôr de lado o que já nos entusiasmou, por outro mantemos a alegria da redescoberta, e estamos muitas vezes abertos à possibilidade de nos deixarmos surpreender e cativar de novo...
...das (in)confidências, tentamos evitar nódoas, poeiras, sujidades, na tentativa de fazer perdurar o brilho...

segunda-feira, 16 de junho de 2008

When you are old...

Quando grisalha e velha e mais de sono cheia
Cabeceares à lareira, pega nestes versos
E lê-os devagar, e lembra os universos
Do teu olhar de outrora, tão profunda teia;

E quantos tantos amaram teu alegre encanto,
Como tua beleza em falso ou vero amor,
E um só foi quem amou de tua alma o ardor,
E do teu rosto a mágoa do mutável pranto.

Curvada então ao lado das ardentes brasas,
Murmura um pouco triste que o amor se afastou.
Nos sobranceiros montes vagueante andou,
E o seu rosto escondeu na multidão dos astros.


de William Buttler Yeats (traduzido por Jorge de Sena)

domingo, 15 de junho de 2008

Carta da corcunda para o serralheiro

"Senhor António:
O senhor nunca há-de ver esta carta, nem eu a hei-de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.
O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciú­mes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o se­nhor não me desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.
O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gosta das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.
Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo [sic] não vou procurar saber.
Eu sou corcunda desde a nascença e sempre se riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter — e agora menos que nem vida tenho — gostava de saber tudo.
Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isto, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importân­cia em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só à janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com ossos às avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.
Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.
Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.
Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar à altura da janela. Passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam à minha mãe, e es­tou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Ingla­terra, eu às vezes me envergonha de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.
Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me jul­gam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da des­culpa, porque assim não tenho que explicar por que é que estive distraída.
Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que es­tava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.
Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem mor­reria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é não como tinha vontade de ser.
O senhor que anda de um lado para o outro não calcula qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.
O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as ter­ras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que fi­cou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.
Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de de vez em quando me di­zer adeus da rua, e eu gostava de se lhe puder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.
A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não sou mu­lher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma es­pécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vê, valha-me Deus.
O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!), o Antó­nio da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.
Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida. Aí tem e estou toda a chorar.

MARIA JOSÉ"

Prosa Íntima e de Autoconhecimento
Fernando Pessoa

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Contrariedades...

Talvez quiséssemos avançar nada na idade... e ao contrário de antes, preferir calar quando nada se deve dizer e falar quando tudo deve ser dito!
Contrariedades de uma adultez infantil ou de uma meninice adulta numa relação de díspar entre o que somos e o que gostaríamos que pudéssemos somente parecer.
Afinal, somos muito mais do que aquilo que parecemos... e não nos conhecemos assim tão bem, quanto mais os outros?
Difícil é agir bem perante a plena consciência do que somos e ter a capacidade de ser advogados de defesa e acusação de nós próprios, enquanto seres pensantes e tão errantes que continuamos a ser.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Bom feeling...

Senta-te um pouco aí, tira os sapatos, recosta-te na poltrona já gasta por uma vida debaixo do alpendre e deixa-te levar pelo coração...
Ouve a doce voz que te embala e te faz recordar as histórias de berço...
O vento suave levará para longe todos os cansaços dos dias passados...
Capta a energia que há ao teu redor... sente o sabor, a textura, o som, o cheiro!
Não deixes que os dias te pesem nas costas e não te percas do ritmo musical presente no pleno encantamento da lua...
Descansa. Fecha os olhos...


Se eu adormecer, depois acorda-me... num tom baixinho...

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Olhar sobre a aparente apatia...

O sabor do dia após o outro está repleto de um humor desencantado onde, sem grandes dramatismos (ou será esta aparente apatía um sintoma de pânico total?), nos toca num ponto tão sensível como sermos capazes de aceitar que existe em nós uma grande dose de acaso e de sorte no rumo das nossas vidas, que escapa completamente ao que podemos controlar e dominar. A falta de sentido custa e dói, mas é de uma probabilidade demasiado forte, de vez em quando morde-nos a alma no momento de avançar, quando os dias se revelam mais preguiçosos e desinteressados. À margem, uma estranha e indefinível relação entre o ser e o estar, entre os afectos e as formas, entre lágrimas e as luzes da ribalta... Ao nosso lado, alguém em lugares de passagem, à procura, desta vez, não nas margens, mas no centro do pressentimento desse "alguém", tão denso e tão leve, ao mesmo tempo, tão duro e tão comovente como é a vida de todos os dias...
Bom mesmo, é rever momentos, dos dias ou das noites, que nos parecem poder ser eternos, têm esse sabor incerto da memória pressentida, do que vamos talvez poder guardar para sempre, do que queremos poder salvar de um tempo que apaga e rasga tanto de nós.
Enfim, resta-nos continuar a tentar dar um pouco de côr e sentido aos gestos, às palavras, aos momentos e acreditar que, em cada "jogada", a bola poderá cair do lado certo da rede.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Um pouco de sol...

...tenho saudades das noites de Verão, do sol a entrar quente pela janela e do entardecer tardío a fazer os dias mais longos e as noites a escurecer à hora que é a certa...
...a pele mais morena e a roupa mais leve, os passeios ao fim da tarde, as coisas que se combinam quando o tempo nos dá tempo...
Abre-se a janela e o sol, afinal, vem embrulhado num ar gelado que se cola à ponta do nariz e fica lá agarrado quase para sempre e, como se fosse pouco, às sete ou oito da tarde cai do céu, interminável, uma noite escura...

sábado, 10 de maio de 2008

Melancolia da idade...

Esta que hoje escreve a inflamada melancolia da idade é a mesma que desabafa na desordem dos afectos, a sumptuosidade do coração.
Melhor é desviar-se dos dias cravados a ferro e fogo nesta tábua rasa que é vida contada em anos e afundar-se numa lua em quarto crescente, ao invés de se deter nas noites que crescem em quarto minguante.
O que falta descobrir em nós, está possivelmente nos outros, nos que estão ao nosso lado, no sol que aquece os sonhos da tenra idade, enquanto construímos os castelos de areia da infância e que, nesta urgência de ser, devastamos no passar louco dos anos...
Agora, o mar lembra na sua cadência, o ritmo mais certo das coisas, as certezas e a vida ensina-nos a ser cautelosos, prudentes ou, pelo menos, a tentar ver mais longe, procurando estar perdidos no tempo...
Mais logo a noite virá e com ela o silêncio das estrelas que nos esmaga e nos coloca no ponto mais minúsculo do universo.
A noite, sempre que a desbravamos, torna-nos simultaneamente mais fracos e corajosos como nunca e revela-nos, quando menos queremos, uma parte inteira, tão profunda daquilo que somos, que se fala mais verdade, correm mais palavras e silêncios de um significado transbordante.
O que falta descobrir em nós, está possivelmente nos outros, é uma tarefa que não acaba nunca...

terça-feira, 6 de maio de 2008

Contraponto dissonante...

"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço que a minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornar-se autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta .
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo... "

Fernando Pessoa


... tenho defeitos, vivo ansiosa de mais e fico irritada muitas vezes...

... a minha vida não é a maior empresa do mundo e sei que não vou conseguir evitar a sua falência...

... nem sempre vale a pena viver....apesar de fazer frente a muitos desafios...

... não sou a autora da minha própria história. Embora participe em alguns capítulos...a minha história já estava escrita quando nasci...

... não posso atravessar desertos fora de mim... pois não teria coragem de regressar... oásis nos recônditos da minha alma só em breves momentos perdidos no tempo...

... tenho medo dos meus próprios sentimentos...

... por vezes não tenho coragem para ouvir um "não"...

...Pedras no caminho? Guardei-as todas...não construi um castelo, mas sim uma fortaleza onde ninguém ousa entrar...

segunda-feira, 5 de maio de 2008

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Destino...

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.
Este é o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Eros e Psiquê

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.


Poema de Fernando Pessoa
Coimbra, Maio de 1934

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Estado de alma...

"Há pessoas que transformam o sol
numa simples mancha amarela,
mas há aquelas que
fazem
de uma simples
mancha amarela
o próprio sol."

Pablo Picasso

terça-feira, 8 de abril de 2008

Memórias que se colam...

Reconciliei-me com os meus sonhos.
Abri o meu baú, por breves segundos, respirei o ar das memórias mais dispersas...
No silêncio... um eco estranho!
No escuro... o que bate mais ou menos certo no meu caminho!
Desmancho cada pedaço do que é feito o coração e tudo acaba por fazer mais sentido.
Chego a todos os cantos da minha vida inteira.... voltam as emoções, aqui bem dentro, as mesmas que me colam às memórias escondidas que vou guardando do que já vivi, senti, ri e chorei.
E "(...) o que não vivi, um dia hei-de inventar(...)" também!
Enfim, descubro que cada momento por nós vivido é tão importante como a nossa vida inteira... e que tudo o que guardamos nas entranhas da nossa memória, nesse lugar onde somos nós mesmos de verdade, connosco e com aqueles que amamos, onde sonhamos com aqueles que ficam, quando deles nada mais fica, onde encontramos todos esses que sempre abraçámos, que nos constroem, por dentro, a nossa fórmula do ser e do estar, fazem com que exista em nós um mundo que nos abriga...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

(De)coração...

"Quando começa uma pessoa a nascer? Quando começa a morrer? Será que começa a morrer ainda antes de ter nascido por inteiro? Sentado numa cadeira de praia interrogo o pé que desenha na areia quente uma âncora. E depois a âncora desenha um coração. E depois o coração desenha uma janela. Levanta-se da cadeira, aproxima-se da janela, debruça-se, dá um impulso ao corpo magoado e cai. Só o vento o acompanha. Está ainda a nascer? Ou começou agora? Meu amor, vejo-te nascer todos os dias, com os olhos estremunhados e o polegar enfiado na boca. Escondo de ti que todos os dias comecei a morrer, desde sempre, envergonhado de não ter guelras, ou asas, ou orelhas com pêlo felpudo. Aproveito o teu nascimento ininterrupto para dar um salto para junto de ti, e ter a ilusão, a alegria, a flor, a moeda mágica, que vão garantir que é contigo que nasço em cada dia que nasces."

Eduardo Prado Coelho

Das duas uma...

De vez em quando a insónia vibra com a

nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas

uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas

da sua harpa insuportável.

No segundo caso, o homem que não dorme

pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo

e assim, deslocando todo o peso do sangue

sobre a metade mais gasta do meu corpo,

esmagar o coração».
Carlos Oliveira

segunda-feira, 31 de março de 2008

1000! Bem hajam...

O mais puro agradecimento aos que acompanham a minha irrequieta existência....

quarta-feira, 26 de março de 2008

Deixei-me ficar...

... a chuva, que cessou entretanto, foi o mote para me deixar estar mais um pouco. Saboreei calmamente a voz daquela noite, a mesma que me deixa tranquila até hoje... As pegadas marcadas na areia deixaram um rasto de saudade e guardam agora a promessa de um amanhecer à luz de um sol nu... As ondas, quebrando-se na areia num delicado repousar, hesitaram diante de um gesto mais demorado e eu...
Eu... deixei-me ficar...

terça-feira, 25 de março de 2008

Partir é demasiado fácil.

"As coisas pioram, o mundo muda. No meu sonho nada evolui. Eu estou sempre como agora. Tu não sais da minha frente. As pessoas não crescem. As árvores não morrem. Se a vida pudesse ser parada, eu parava-a aqui.
Tenho os meus amigos à minha volta. Durmo numa terra estrangeira. Passo a fronteira de pijama. E queria que fosse sempre assim, que não mudassem o lugar às casas e às estradas, que as pessoas passassem sempre à mesma velocidade, cumprimentando-se lentamente lembrando-se dos nomes, com respeito e com prazer.
Sou contra as viagens. As viagens existem, mas não se deviam forçar. Partir para quê? No meu sonho não descubro terras nem estranhos: descubro-me a mim e à minha casa.
Partir é demasiado fácil."

quinta-feira, 13 de março de 2008

Liberdade da destruição...

A minha melhor obra de arte, ontem construída a partir de mim própria e que hoje, apesar de me oferecer um poder de concretização, a vejo como um processo de sucessão e de passagem, um work-in-progress produzido ao som minha própria história. Assim que a der por concluída, tomarei conta do seu espaço com total liberdade de destruição... e se iniciará um novo circuito de cumplicidades...

quarta-feira, 12 de março de 2008

Inside...

Here... where everything which envelopes us is sweet, here on high where one breathes, where one believes in the possibility of anything happening.
Here, where eveything is a caress, where all is simple and true.
Here where love germinates.
Here inside us...

terça-feira, 11 de março de 2008

Ouve-se o mar...

`Agora, que a chuva cai devagar, lá fora... E a noite vem devorar o sol e tudo fica em silêncio na rua....
E ao fundo ouve-se o mar...
Agora, talvez te possas perder, devora o que a saudade te der . A vida leva pra longe pedaços do tempo, deixa o sabor de um regaço...
E ao fundo ouve-se o mar...
Agora, que a água inunda os teus olhos e o mundo já não te deixa parar... No escuro voltam as estórias perdidas, na alma onde não podes tocar...
E ao fundo ouve-se o mar...`

quarta-feira, 5 de março de 2008

Sol Maior...!

Vagueio por ali, onde se acalmam as ondas mais amotinadas, rebeldes como a saudade que me sublevou noutra noite, naquele mesmo lugar, hoje talvez um pouco mais tarde do que é habitual...
Reacendo nos meus olhos as estrelas caducas e acelero com um toque as nuvens que teimam em passar por lá, sempre no mesmo instante e com aquele olhar pluvioso...
Lanço uns sorrisos a uma dócil lua cheia que, mesmo depois de todas as solicitações e suplícios, e surgindo do outro lado já exausta, não me tem deixado desabrigada...
Aconchego as pedras soltas, já furadas pelos anos de embate e ergo um muro poroso, regalando para um canto o que já lá estava e que já me pertencia!
Faço isto todas as noites... quando o cansaço se abeira de mim, acabo por adormecer enrolada num quente e macio manto de areia...
Só volto a acordar quando ouço o sabor do mar a tocar-me nos pés...
...sempre em Sol Maior...!

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Segundo...

`Questão é curiosa nesta Filosofia, qual seja mais precioso e de maiores quilates: se o primeiro amor, ou o segundo? Ao primeiro ninguém pode negar que é o primogénito do coração, o morgado dos afectos, a flor do desejo, e as primícias da vontade. Contudo, eu reconheço grandes vantagens no amor segundo. O primeiro é bisonho, o segundo é experimentado; o primeiro é aprendiz, o segundo é mestre: o primeiro pode ser ímpeto, o segundo não pode ser senão amor. Enfim, o segundo amor, porque é segundo, é confirmação e ratificação do primeiro, e por isso não simples amor, senão duplicado, e amor sobre amor. É verdade que o primeiro amor é o primogénito do coração; porém a vontade sempre livre não tem os seus bens vinculados. Seja o primeiro, mas não por isso o maior.`

Padre António Vieira, in "Sermões"

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Noves fora...

...nada!

Por hoje é tudo...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

E se um dia eu disser...

Se eu voar sem saber onde vou
Se eu andar sem conhecer quem sou
Se eu falar e a voz soar com a manhã
Eu sei...

Se eu beber dessa luz
Que apaga a noite em mim
E se um dia eu disser
Que já não quero estar aqui,
Só Deus sabe o que virá,
Só Deus sabe o que será,
Não há outro que conhece
Tudo o que acontece em mim...

Se a tristeza é mais profunda que a dor
Se este dia já não tem sabor
E no pensar que tudo isto já pensei
Eu sei...

Se eu beber dessa luz
Que apaga a noite em mim
E se um dia eu disser
Que já não quero estar aqui,
Só Deus sabe o que virá,
Só Deus sabe o que será,
Não há outro que conhece
Tudo o que acontece em mim...

Se eu beber dessa luz
Que apaga a noite em mim
E se um dia eu disser
Que já não quero estar aqui
Na incerteza de saber
O que fazer, o que querer,
Mesmo sem nunca pensar
Que um dia o vá expressar,
Não há outro que conhece
Tudo o que acontece em mim...

Voz de Sara Tavares...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Sine qua none

Obriguei-me a passar por aquela rua deserta, tão deserta como o jardim que me agasalhou, durante este inverno, da demência do outono obsoleto...
Talvez fosse esta a condição "sine qua none" para atravessar a ténue ponte em direcção a uma primavera clandestina!!!

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Sísifo

Recomeça...

Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
Sempre a sonhar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

É a vida...

Todos os dias é um vai... e vem...
A vida repete-se na estação...
Há gente que chega para ficar, há gente que vai para nunca mais voltar, há gente que vem e quer ficar, há gente que vai e quer voltar, há gente que veio só olhar, há gente a sorrir e a chorar...
É assim, chegar e partir, são só dois lados da mesma viagem...
A plataforma desta estação é a minha vida...
É a vida...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Devaneio...

´Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca das nove horas, volta sempre à esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.´

Fernando Pessoa

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Íssimo...

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço…

Álvaro de Campos

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Há um lugar...

..onde nos cruzámos com a transparência e crueza da perfeição...
Esse...
Onde não se olha a terra à vista e o mar nos fala com voz de profeta...
Onde homens rasgam e tropeçam nos sorrisos...
Onde, de costas voltadas para uma cidade fantasma, se procura um destino...
Onde a alma se desfaz em pedaços de sombra e a areia nos cala a voz entre as mãos...
Onde nos entregamos sem reservas ao frio e ao medo e gritamos "Faz de mim o que quiseres!"...
Onde a noite se reproduz e, silenciosamente, na sua magia, se revela audaz...
Onde cada pedra nos conhece pelo nome e o sussurra ao ouvido da lua...
Onde as lágrimas se vestem de paz, tranquilidade, quando a luz se acende e partimos, repletos, para a solidão do nosso quarto...
...longe, mas nunca tão perto!

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Amnésia em palavras

“Eu consigo voar.
Flutuo por onde me apetece.
Raso picos de montanhas
e suspendo-me coberto pela primeira nuvem da noite.
Se quiser, paro.
Rodopio.
Precipito-me da cabeça para baixo,
deixo-me ir, abro os braços.
Tenho sempre fome.
Vagueio, procuro.
Nunca encontro.
Sou transparente, já indefinido.
Sou vazio e estranho-me em tudo.”


“Do que recordas eu era cadáver.
E nos buracos mais fundos me buscavas cuidando atrair-me.
Sabendo que me resto imemorial, à deriva em carne fresca,
o proibido que negas quando só eu decido.
E me perfumo incessante no sangue dos mártires que convocas.
E me alimento do que me atiras para me matar.”


“O coração é um bicho (…), um dragão, a besta, o falso profeta (…),
onde a verdade e a mentira se agridem até à morte”


“Porque o coração é um bicho e não ouve.”

"Mulher em Branco", Rodrigo Guedes de Carvalho

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Contra os donos de escravas...

´Foi há tantos anos, foi há dois mil anos
Que vi no amor o meu Cristo
Que me mostraste um amor imprevisto
Que me falaste na pele e no corpo a sorrir

Meus olhos fechados, mudos, espantados
Te ouviram como se apagasses
A luz do dia ou a luta de classes
Meus olhos verdes ceguinhos de todo para te servir

(...)

Filhos e cadilhos, panelas e fundilhos
Meteste as minhas mãos à obra
E encontraste momentos de sobra
Para evitar que o meu corpo pensasse na vida

Teus olhos fechados, mudos e cansados
Não viam se verso, se prosa
O meu suor era o teu mar de rosas
Meus olhos verdes, janelas de vida fechados por ti

(...)

Pegas-me na mão e falas do patrão
Que te paga um salário de fome
O teu patrão que te rouba o que come
Falas contigo sozinho para desabafar

Meus olhos parados, mudos e cansados
Não podem ouvir o que dizes
E fico à espera que me socializes
Meus olhos verdes
Boneca privada do teu bem estar

(...)

Sou tua criada boa e dedicada
Na praça, na casa e na cama
Tu só vês quando vestes pijama
Mas não me ouves se digo que quero existir

Meus olhos cansados ficam acordados
De noite chorando esta sorte
De ser escrava prá vida e prá morte
Meus olhos verdes
Vermelhos de raiva para te servir

A tua vontade, justiça igualdade
Não chega aqui dentro de casa
Eu só te sirvo para a maré vaza
Mas eu já sinto a minha maré cheia a subir

Meus olhos cansados abrem-se espantados
Prá vida de que me falavas
Pra combater contra os donos de escravas
Meus olhos verdes
Que te vão falar e que tu vais ouvir

(...)

Sei aquilo que fui e que jamais serei`...

Mafalda Veiga & João Pedro Pais

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Pensamentos... Manual de Sobrevivência!

Controlar os pensamentos é uma virtude!
Quantas vezes nos acontece, quando estamos perante um acontecimento, bom ou mau, patentearmos sentimentos de contentamento ou tristeza, num efeito acção-reacção muito rápido.
Se eu perguntar a qualquer pessoa, como se sente se ganhar no euro milhões, a resposta será contente, como é óbvio!
Se, por outro lado, estamos perante uma situação que nos crie alguma ansiedade, como por exemplo, passar a hora de um telefonema importante, a reacção é imediata e surge a tristeza...
Porque é que pensamos assim?
Entre os acontecimentos e os sentimentos, existem os pensamentos automáticos negativos ou positivos, que surgem à velocidade da luz, sem darmos por isso...
O namorado tefefona à namorada, todos os dias às onze da noite, mas naquele dia não aconteceu... O sentimento que surge imediatamente é a tristeza. O que não nos apercebemos é que no intervalo, acontecimento-sentimento surgiram, em "dois milésimos de segundo", os pensamentos automáticos negativos, como por exemplo "ele já não gosta de mim", "ele não quer falar comigo", "ele está com outra pessoa" e pior do que isso, tomamos esses pensamentos automáticos negativos como sendo verdadeiros.
A sugestão é que devemos ter consciência que existem esses pensamentos negativos e temos de parar de os tomar como leituras infalíveis da realidade, ou seja, devemos considerar a possibilidade de eles estarem totalmente errados. Depois devemos submeter a interpretação dos nossos pensamentos automáticos a uma análise objectiva, ou seja, "ele não quer falar comigo", se calhar porque não pode naquele momento... ou aconteceu algo que o impediu... Não diminui a ansiedade, mas diminui a tristeza!
Outra questão que podemos colocar a nós próprios, e que quase sempre é útil, é a seguinte: "O que diríamos a um amigo que estivesse a pensar dessa maneira?

Pensando bem... se ganhasse o euromilhões iria ficar triste, porque, como diz o outro, afinal o dinheiro não traz felicidade!!!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Conformismo...

"Uma nêspera
estava na cama deitada,
muito calada, a ver
o que acontecia
Chegou a Velha e disse:
- Olha uma nêspera!
e, zás! - comeu-a.
É o que acontece às nêsperas
que ficam deitadas, caladas,
a esperar
o que acontece!"

Mário Henrique Leiria