sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Segundo...

`Questão é curiosa nesta Filosofia, qual seja mais precioso e de maiores quilates: se o primeiro amor, ou o segundo? Ao primeiro ninguém pode negar que é o primogénito do coração, o morgado dos afectos, a flor do desejo, e as primícias da vontade. Contudo, eu reconheço grandes vantagens no amor segundo. O primeiro é bisonho, o segundo é experimentado; o primeiro é aprendiz, o segundo é mestre: o primeiro pode ser ímpeto, o segundo não pode ser senão amor. Enfim, o segundo amor, porque é segundo, é confirmação e ratificação do primeiro, e por isso não simples amor, senão duplicado, e amor sobre amor. É verdade que o primeiro amor é o primogénito do coração; porém a vontade sempre livre não tem os seus bens vinculados. Seja o primeiro, mas não por isso o maior.`

Padre António Vieira, in "Sermões"

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Noves fora...

...nada!

Por hoje é tudo...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

E se um dia eu disser...

Se eu voar sem saber onde vou
Se eu andar sem conhecer quem sou
Se eu falar e a voz soar com a manhã
Eu sei...

Se eu beber dessa luz
Que apaga a noite em mim
E se um dia eu disser
Que já não quero estar aqui,
Só Deus sabe o que virá,
Só Deus sabe o que será,
Não há outro que conhece
Tudo o que acontece em mim...

Se a tristeza é mais profunda que a dor
Se este dia já não tem sabor
E no pensar que tudo isto já pensei
Eu sei...

Se eu beber dessa luz
Que apaga a noite em mim
E se um dia eu disser
Que já não quero estar aqui,
Só Deus sabe o que virá,
Só Deus sabe o que será,
Não há outro que conhece
Tudo o que acontece em mim...

Se eu beber dessa luz
Que apaga a noite em mim
E se um dia eu disser
Que já não quero estar aqui
Na incerteza de saber
O que fazer, o que querer,
Mesmo sem nunca pensar
Que um dia o vá expressar,
Não há outro que conhece
Tudo o que acontece em mim...

Voz de Sara Tavares...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Sine qua none

Obriguei-me a passar por aquela rua deserta, tão deserta como o jardim que me agasalhou, durante este inverno, da demência do outono obsoleto...
Talvez fosse esta a condição "sine qua none" para atravessar a ténue ponte em direcção a uma primavera clandestina!!!

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Sísifo

Recomeça...

Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
Sempre a sonhar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

É a vida...

Todos os dias é um vai... e vem...
A vida repete-se na estação...
Há gente que chega para ficar, há gente que vai para nunca mais voltar, há gente que vem e quer ficar, há gente que vai e quer voltar, há gente que veio só olhar, há gente a sorrir e a chorar...
É assim, chegar e partir, são só dois lados da mesma viagem...
A plataforma desta estação é a minha vida...
É a vida...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Devaneio...

´Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca das nove horas, volta sempre à esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.´

Fernando Pessoa

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Íssimo...

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço…

Álvaro de Campos

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Há um lugar...

..onde nos cruzámos com a transparência e crueza da perfeição...
Esse...
Onde não se olha a terra à vista e o mar nos fala com voz de profeta...
Onde homens rasgam e tropeçam nos sorrisos...
Onde, de costas voltadas para uma cidade fantasma, se procura um destino...
Onde a alma se desfaz em pedaços de sombra e a areia nos cala a voz entre as mãos...
Onde nos entregamos sem reservas ao frio e ao medo e gritamos "Faz de mim o que quiseres!"...
Onde a noite se reproduz e, silenciosamente, na sua magia, se revela audaz...
Onde cada pedra nos conhece pelo nome e o sussurra ao ouvido da lua...
Onde as lágrimas se vestem de paz, tranquilidade, quando a luz se acende e partimos, repletos, para a solidão do nosso quarto...
...longe, mas nunca tão perto!

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Amnésia em palavras

“Eu consigo voar.
Flutuo por onde me apetece.
Raso picos de montanhas
e suspendo-me coberto pela primeira nuvem da noite.
Se quiser, paro.
Rodopio.
Precipito-me da cabeça para baixo,
deixo-me ir, abro os braços.
Tenho sempre fome.
Vagueio, procuro.
Nunca encontro.
Sou transparente, já indefinido.
Sou vazio e estranho-me em tudo.”


“Do que recordas eu era cadáver.
E nos buracos mais fundos me buscavas cuidando atrair-me.
Sabendo que me resto imemorial, à deriva em carne fresca,
o proibido que negas quando só eu decido.
E me perfumo incessante no sangue dos mártires que convocas.
E me alimento do que me atiras para me matar.”


“O coração é um bicho (…), um dragão, a besta, o falso profeta (…),
onde a verdade e a mentira se agridem até à morte”


“Porque o coração é um bicho e não ouve.”

"Mulher em Branco", Rodrigo Guedes de Carvalho