quinta-feira, 24 de abril de 2008

Destino...

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.
Este é o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Eros e Psiquê

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.


Poema de Fernando Pessoa
Coimbra, Maio de 1934

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Estado de alma...

"Há pessoas que transformam o sol
numa simples mancha amarela,
mas há aquelas que
fazem
de uma simples
mancha amarela
o próprio sol."

Pablo Picasso

terça-feira, 8 de abril de 2008

Memórias que se colam...

Reconciliei-me com os meus sonhos.
Abri o meu baú, por breves segundos, respirei o ar das memórias mais dispersas...
No silêncio... um eco estranho!
No escuro... o que bate mais ou menos certo no meu caminho!
Desmancho cada pedaço do que é feito o coração e tudo acaba por fazer mais sentido.
Chego a todos os cantos da minha vida inteira.... voltam as emoções, aqui bem dentro, as mesmas que me colam às memórias escondidas que vou guardando do que já vivi, senti, ri e chorei.
E "(...) o que não vivi, um dia hei-de inventar(...)" também!
Enfim, descubro que cada momento por nós vivido é tão importante como a nossa vida inteira... e que tudo o que guardamos nas entranhas da nossa memória, nesse lugar onde somos nós mesmos de verdade, connosco e com aqueles que amamos, onde sonhamos com aqueles que ficam, quando deles nada mais fica, onde encontramos todos esses que sempre abraçámos, que nos constroem, por dentro, a nossa fórmula do ser e do estar, fazem com que exista em nós um mundo que nos abriga...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

(De)coração...

"Quando começa uma pessoa a nascer? Quando começa a morrer? Será que começa a morrer ainda antes de ter nascido por inteiro? Sentado numa cadeira de praia interrogo o pé que desenha na areia quente uma âncora. E depois a âncora desenha um coração. E depois o coração desenha uma janela. Levanta-se da cadeira, aproxima-se da janela, debruça-se, dá um impulso ao corpo magoado e cai. Só o vento o acompanha. Está ainda a nascer? Ou começou agora? Meu amor, vejo-te nascer todos os dias, com os olhos estremunhados e o polegar enfiado na boca. Escondo de ti que todos os dias comecei a morrer, desde sempre, envergonhado de não ter guelras, ou asas, ou orelhas com pêlo felpudo. Aproveito o teu nascimento ininterrupto para dar um salto para junto de ti, e ter a ilusão, a alegria, a flor, a moeda mágica, que vão garantir que é contigo que nasço em cada dia que nasces."

Eduardo Prado Coelho

Das duas uma...

De vez em quando a insónia vibra com a

nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas

uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas

da sua harpa insuportável.

No segundo caso, o homem que não dorme

pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo

e assim, deslocando todo o peso do sangue

sobre a metade mais gasta do meu corpo,

esmagar o coração».
Carlos Oliveira