quinta-feira, 24 de abril de 2008

Destino...

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.
Este é o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

1 comentário:

Anónimo disse...

Escreveste assim no oiglake em 03 de Novembro de 2007:

"À tua volta talvez não haja tudo quanto querias, as alegrias imediatas em todos os momentos, a perfeição imaginada para qualquer bocado de vida, quando a comparação com o que ouvimos dos outros é uma historia que nos deixa sentidos.
À tua volta talvez não haja tudo quanto querias, mas há pequenos momentos tão valiosos, muitos deles secretos, rápidos, coisas nunca ditas, uma surpresa inesperada, uma simples flor.
À tua volta talvez não haja tudo quanto querias, mas há seguramente a tua vida, seus encantos, quem te quis bem e desejou que um dia fosses feliz, e ser feliz tem tanto que se lhe diga que fica sempre muito por explicar ou acontecer.
À tua volta, sim à tua volta, por que não olhar?
Há, com certeza, inúmeros sinais, estrelas, uma brisa, uma luz que brilha não se sabe bem de onde e surpreende a memória do passado em que nos fomos moldando, a esperança de um futuro que queremos mais perto...

À tua volta..."

Faço das tuas palavras as minhas palavras para ti...

Beijo

Rodrigo