Como te dizer dessas tantas que me habitam?
Essa que te escreve esta estrofe é terna
Possui uma serenidade quase incómoda.
Afoga-se em meiguices e subtilezas.
Sabe-se assim, afeita ao sublime
E ao divino das pequenas coisas.
Não nega ou desvia olhares, expõe-se
E cede à lenta embriaguez do sentir.
Cabelos longos, reflectindo esperas sob os ombros,
Como a aguardar mãos que lhes desalinhem em carícias.
Na face, todas as estações.
No corpo, alquimia de vontades.
Como te dizer dessas tantas que me habitam?
Essa que te sussurra neste momento,
Descalça-se de pudores, enche-se de intenções
Mãos nuas e sempre em oferenda,
Porque é o amor, seu próprio altar
É que há vestígios de madrugadas húmidas,
Comunhão de êxtases a acordarem lembranças.
É que nas noites dessa, ainda há o teu corpo
Murmurando uma ausência não assimilada
O desejo sempre consumido pela saudade
Consumando-se no leito da espera.
Como te dizer dessas tantas que me habitam?
Essa que fala por mim agora, não sabe das outras.
Desconhece o alvoroço de uma, a doçura da outra.
Guarda palavras interditas, emoções contidas
Como se no silêncio buscasse a claridade
Que se derrama da epiderme da vida.
Vestida de solidão, alcançar-se é seu destino
Olhos imersos a tecerem caminhos.
É sempre nau, oceano dentro de si
É no além do reflexo, espelho da vazante
Que seus olhares mergulham e navegam.
Como te dizer dessas tantas que me habitam?
Essa que é o pulsar da veia daquelas
Que descobre na falta de quase tudo,
Que é fonte para a própria sede.
Não que se baste ou que se desabite
Desfolha-se em pétalas de vivências
E cada morte é em si, um renascer
Porque percebe-se adiante do respirar
É também por pisar em folhas secas
Que os passos descobrem a Primavera...
Porque há sempre alguém que nos conhece o íntimo mesmo sem saber da nossa existência e escreve o que um coração desordenado sente.
Porque não estamos sós nesta imensa busca pelo amor perfeito, pelo amor maior, divino...
Este texto é para todos os que, como eu, buscam esse AMOR maior dentro de si e em si e em alguém especial.
É sobretudo para esse alguém que conhece algumas dessas tantas que me habitam e não sabe o que fazer com elas...
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
terça-feira, 13 de outubro de 2009
I Acto do Amor
´Queria dar-te colo, embalar-te no meu regaço e dizer-te baixinho que tudo está bem quando acaba bem. Queria adormecer essa tua inquietação, dar conta de todos os teus medos, decepar a loucura que desliza dentro de ti como uma enguia sem tino, com tamanha violência que quando sibila se ouve cá fora em redor, escoando-se pelos orifícios da tua pele. Queria garantir-te que, comigo por perto, nada ninguém nunca poderá fazer-te mal, que podes fechar os olhos, descontrair os músculos, deitar para o lixo todos os químicos que agora te permitem a posição vertical e fingires para os outros que és tu. Queria dizer-te que sei que estás algures dentro de ti e que esse invólucro que apresentas é apenas uma pele seca que mais cedo ou mais tarde largarás pelo caminho, quando me souberes lá à frente à tua esfera. Queria que percebesses que há entre nós um laço, mais do que um laço, um nó górdio, um amor complexo e irremediável, cheio de voltas e contravoltas, que ninguém poderá cortar com a sua espada, mesmo que especialmente desembainhada para o efeito. Sei que hoje nada sentes, ocupado que estás com a aritmética simples da sobrevivência, que estas palavras pouco te dizem, que tudo te parece um pesadelo e que não acreditas em mim no fim da linha, acho que a questão nem sequer te interessa. Mas um dia olharemos para trás e leremos os dois este texto premonitório, palavra por palavra, promessa por promessa, juro. E será exactamente como te disse, os dois rodeados de crianças e de bichos e de pólenes de primavera que o vento nos trará em contornando as montanhas. E então serás tu a embalar-me com o cinzento dos teus olhos e a tapares-me com o cobertor até cima, afugentando os meus fantasmas com a mão, vigorosamente, como se fossem apenas insectos incómodos e não esta bola de fogo que me empecilha a garganta e me faz acordar a meio da noite, a vomitar pela cama o medo de te perder para sempre na espuma dos terrores que inventas para ti mesmo.´
A.
II Acto do Amor
Como se pode dizer adeus de um momento para o outro... Tão breve...
Nunca poderia imaginar que a imagem de ontem se viria a reflectir tão tardiamente.
Se o sonho se tornasse realidade, se tu nunca tivesses desaparecido, mas há tantos "ses" que mais vale não dizer mais nenhum. Algo que se tentou encontrar durante este tempo, durante tantos sentimentos, mas há tantos "durantes" que mais vale afirmar que eles se despediram! Uma saudade latente nos olhos, que se coloca por demais vezes pensada, vislumbrando recordações que se colocam no presente, mas que sucederam no passado. Uma amargura de remover o maior dos sentimentos!
Imagens simples que desfilam através do que é, mas que já foram...
É muito triste, não se consegue sequer esconder, andar com as mãos nos bolsos, e dar um pontapé em todas as pedras soltas que se encontram.
Abraçar e sentir que o sabor da melancolia já não existe mais...
Não há nenhum mais, mesmo mais nenhum...
Adeus
Não acredito em despedidas, mas em interrupções que são necessárias...
O Amor... o Amor segue dentro de momentos!
Nunca poderia imaginar que a imagem de ontem se viria a reflectir tão tardiamente.
Se o sonho se tornasse realidade, se tu nunca tivesses desaparecido, mas há tantos "ses" que mais vale não dizer mais nenhum. Algo que se tentou encontrar durante este tempo, durante tantos sentimentos, mas há tantos "durantes" que mais vale afirmar que eles se despediram! Uma saudade latente nos olhos, que se coloca por demais vezes pensada, vislumbrando recordações que se colocam no presente, mas que sucederam no passado. Uma amargura de remover o maior dos sentimentos!
Imagens simples que desfilam através do que é, mas que já foram...
É muito triste, não se consegue sequer esconder, andar com as mãos nos bolsos, e dar um pontapé em todas as pedras soltas que se encontram.
Abraçar e sentir que o sabor da melancolia já não existe mais...
Não há nenhum mais, mesmo mais nenhum...
Adeus
Não acredito em despedidas, mas em interrupções que são necessárias...
O Amor... o Amor segue dentro de momentos!
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Se eu vivo?
´E se eu, habitante de uma aparente apatia, mostrasse os dentes à vida, rosnando o que me sai pela periferia da emoção?
Questiono uma sala vazia, espaço emoldurado por nada e por ninguém ocupado, anfiteatro tornado museu da minha tortura...
Sai a resposta, em ecos de silêncio, perceptivelmente captada pela lógica inerte dos números: és um, não está ninguém, deves ter razão.
Lá fora, amontoam-se abutres, de faca afiada e senha na mão, procurando ocupar este espaço, onde, vestindo um fato buraco, me aliei à loucura.
Angélica, esta vontade de acreditar em qualquer coisa, qualquer coisa suficientemente maior que a nossa dimensão...
Patética, esta dependência da probabilidade, da puta sorte, entremeios, haverá o que houver, será o que for, ou talvez não...
E se, de repente, eu me sentar no mais pequeno degrau da porta de acesso aos bastidores deste estranho Mundo?
Talvez me possa refugiar, cá fora, onde tudo não é quando parece e nada parece quando na realidade existe...
Ocupando o preciso espaço de um candeeiro apagado, serei capa do silêncio, com a inútil máscara de um doer profundo.
Cá fora, outros se agrupam, salivando inveja em sádicos projectos para brilhar.
A isto toda a gente, impávida, assiste...´
Questiono uma sala vazia, espaço emoldurado por nada e por ninguém ocupado, anfiteatro tornado museu da minha tortura...
Sai a resposta, em ecos de silêncio, perceptivelmente captada pela lógica inerte dos números: és um, não está ninguém, deves ter razão.
Lá fora, amontoam-se abutres, de faca afiada e senha na mão, procurando ocupar este espaço, onde, vestindo um fato buraco, me aliei à loucura.
Angélica, esta vontade de acreditar em qualquer coisa, qualquer coisa suficientemente maior que a nossa dimensão...
Patética, esta dependência da probabilidade, da puta sorte, entremeios, haverá o que houver, será o que for, ou talvez não...
E se, de repente, eu me sentar no mais pequeno degrau da porta de acesso aos bastidores deste estranho Mundo?
Talvez me possa refugiar, cá fora, onde tudo não é quando parece e nada parece quando na realidade existe...
Ocupando o preciso espaço de um candeeiro apagado, serei capa do silêncio, com a inútil máscara de um doer profundo.
Cá fora, outros se agrupam, salivando inveja em sádicos projectos para brilhar.
A isto toda a gente, impávida, assiste...´
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